Sasom i en spegel/Through a Glass Darkly (Através de um Espelho) – 1961

Um ano após Ingmar Bergman conquistar os Estados Unidos com o espetacular The Virgin Spring (leia meu review), o diretor sueco conquistou seu segundo Oscar de melhor filme estrangeiro com Såsom i en spegel (distribuído mundialmente como Through a Glass Darkly e no Brasil com o título de Através de um Espelho).  Frank Gado, autor do fascinante livro The Passion of Ingmar Bergman, considera este longa como exemplo clássico de uma produção de três atos (preparação, confrontação e resolução). O título vem de uma passagem bíblica de 1 Coríntios 13, que diz “agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho.”

O ato inicial começa com uma alegre reunião em família. Karin (Harriet Andersson) sofre com problemas mentais e acabou de receber alta da clínica.  Seu marido Martin (Max von Sydow) parece descontente com seu relacionamento, pois além dos delírios constantes, Karin não cede aos apelos sexuais de seu companheiro. Enquanto isto, David (Gunnar Björnstrand) luta para compreender a dimensão da doença de sua filha. O fato é que tanto Martin quanto David sabem que o caso de Karin não tem cura e tende a piorar cada dia mais.

A exposição da história dá lugar ao grande problema que está por vir: Karin lê o diário de seu pai e descobre que seu caso é mais grave do que pensava. Ela passa a desconfiar das intenções de seu pai e de seu marido e se vê em seu irmão Minus (Lars Passgård) a imagem do homem que deveria lhe dar sustentação para enfrentar os dilemas de sua cabeça. Os dois se perdem em um relacionamento – que atravessa a barreira do moralismo americano pregado pela Motion Picture Association of America até 1968. Os minutos finais são dedicados a uma detalhada exposição sobre o grande problema enfrentado pela família. Fica claro que o título do longa nos ajuda a esclarecer – e muito – sobre o que estamos assistindo.

Mantendo a estética de seus trabalhos anteriores, a tomada das cenas é feita de forma muito cuidadosa, e por vezes até rígida demais. Notei que Bergman deu muita atenção ao detalhe de uma janela que aponta para o horizonte. Mais do que uma bela fotografia, o sueco estava preocupado em dar um sentido simbólico a seu trabalho. Desde quartos sujos até o pequeno rasgo em uma parede, a análise da história depende muito dos detalhes que cercam os envolvidos. O diretor aposta muito em enquadramentos duplos, ou seja, mostra sempre que pode dois atores na mesma cena. Mas é muito interessante observar que na maioria das vezes o espectador não enxerga uma discussão olho no olho. Os personagens parecem esconder algo muito maior e insistem em esquivar o máximo possível.

Este filme seria o ponto inicial de uma marcante trilogia da década de 1960 (junto de Winter Light (veja meu review) e The Silence. Segundo o diretor: “These three films deal with reduction. Through a Glass Darkly – conquered certainty. Winter Light – penetrated certainty. The Silence – God’s silence – the negative imprint. Therefore, they constitute a trilogy.” 

NOTA: 7/10

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