Stalker – 1979

Até ontem, se alguém me perguntasse qual era o filme mais difícil de se interpretar, certamente responderia citando Mulholland Dr (2001) de David Lynch. Hoje, minha opinião é diferente: Stalker, do lendário Andrei Tarkovsky, é o tipo de filme que você acaba de assistir e não encontra nenhuma resposta para o que procura. A história central do filme é contada através de pequenas ações e símbolos. Ou seja, se você prestar muita atenção dos diálogos, provavelmente irá deixar escapar boa parte da essência do longa. Por este motivo, não é todo mundo que consegue gostar de Stalker. Apesar de ser elogiado por toda crítica especializada, uma pessoa comum, com o dia cheio de trabalho, certamente não vai querer gastar duas horas e quarenta minutos de seu tempo tentando decifrar os mistérios de Tarkovsky. Digo isto porque a solução do longa é individual e pode ser uma tarefa bastante dura.

A história é baseada no livro Roadside Picnic, dos irmãos Strugatsky. Confesso que não li a obra, mas confio na palavra de Pauline Kael, que cita o longa de Tarkovsky como um prelúdio do que é relatado no livro. Em uma cidade cinzenta e sem nome existe uma “Zona”. Ela é rodeada de guardas e cercada por arames. O governo não quer que ninguém se aproxime dela. Um Stalker (homem que tem conhecimento sobre como sobreviver na Zona, interpretado por Alexander Kaidanovsky) aceita levar um escritor (Anatoli Solonitsyn) e um cientista (Nikolai Grinko) ao misterioso lugar, apesar dos protestos de sua mulher. O objetivo é encontrar “o Quarto”, um local onde todos os desejos são realizados. Durante 163 minutos, acompanhamos a jornada dos três homens e as questões morais de um homem poder conseguir tudo o que se imagina.

Este filme provavelmente é o que possui o maior número de histórias por trás de sua produção. Aconteceu de tudo um pouco. Mortes no elenco, brigas entre a equipe de produção e pressão do Goskino (órgão de filmes extinta União Soviética) para encerrar as filmagens. O filme foi originalmente gravado com uma nova tecnologia da Kodak. No entanto, a equipe de edição não soube manusear corretamente e a cópia acabou sendo queimada. O diretor ainda enfrentou problemas com Georgy Rerberg, responsável pela fotografia e acabou mandando embora ele e boa parte do elenco durante as filmagens. Stalker foi filmado três vezes e até hoje não existe consenso sobre as diferenças e semelhanças de cada versão: existem aqueles que dizem que o final da primeira versão do filme é muito diferente da versão que foi exibida no cinema, e o pessoal da produção, que garante que todas as três versões têm final igual.

A atuação do elenco é muito interessante. Os olhos arregalados de Alexander Kaidanovsky mostram a perigo do ambiente desconhecido. Pergunto-me se Tarkovsky realmente tinha alguma mensagem para oculta ou apenas camuflou o longa com simbolismos. Stalker foi ambientado na União Soviética após um desastre nuclear? O que significa o cachorro preto que está sempre próximo dos protagonistas? Existe alguma relação da quebra de quarta parede na penúltima cena do longa com o que vimos anteriormente? A cena onde um homem desarma a bomba teria alguma relação com a Guerra Fria?

São muitas perguntas. O que torna o filme único é que, ao invés de partir para alegorias ou efeitos especiais, todo o medo do que pode acontecer na Zona está no psicológico de cada personagem. Acompanhamos o desenvolvimento de cada um dentro do misterioso espaço. Apesar do protagonista nos convencer de que a zona é extremamente perigosa e cheia de armadilhas, isto não se confirma durante o filme. Alguma mensagem oculta aqui? O diretor preparou algumas surpresas para o espectador, sendo a principal delas a transição do preto e branco para tons coloridos em alto contraste, além de passagens com filtro sépia. O resultado é maravilhoso!

Se você ficou curioso, tente responder a estas questões após assistir a este filme. A tarefa é prazerosa mas já adianto: não existe uma explicação sobre o que é certo ou errado, tudo depende de sua experiência.

NOTA: 8/10

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